quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Desafio de escrita dos pássaros #3 Uma aventura ou momento marcante

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Quando a minha avó morreu, a minha mãe teve de tratar de tudo para entregar a casa ao senhorio. Um apartamento num prédio na Av. Duque d’Avila que já foi deitado abaixo.
Nessa altura fizemos várias viagens a Lisboa, de comboio ou de camionete.
Para a minha mãe deve ter sido muito difícil e triste, para mim, havia algo de aventura e a morte não era ainda bem real.
Em Lisboa alguns taxistas suscitaram o problema mas aceitaram levar-nos aos cinco, o meu pai à frente e atrás a minha mãe, muito elegante, e as três filhas, a minha irmã mais velha com catorze anos, e eu e a minha irmã mais nova com onze e nove anos, ainda bem miúdas e magrizelas.
Nos Mercedes Táxi cabíamos perfeitamente.
Numa noite em que regressámos de camionete esperamos muito tempo até chegar um táxi e aqui, no Porto, o motorista foi peremptório, não nos levava aos cinco.
 O meu pai disse então que iria a pé, até porque tendo levado tanto tempo até chegar um táxi, não faria muito sentido ficar o mesmo tempo ou mais à espera do próximo.
A minha mãe não queria que ele ficasse sozinho, mas com três filhas e as malas, não via como irmos todos a pé.
Aí, eu disse que ia com ele. O táxi afastou-se com a minha mãe, as minhas irmãs e as malas e nós iniciámos o passeio.
Era bem tarde e não se via ninguém pelas ruas, mas não senti receio, dei a mão ao meu pai, tentei acompanhar os seus passos e conversámos até chegarmos a casa.
Lá havia luz e a minha mãe tinha feito torradas e café com leite para comermos.
Senti-me feliz por ver que a minha mãe tinha gostado que o meu pai não fosse sozinho, ter conseguido acompanhar os seus passos e estarmos depois todos juntos, em casa, a cearmos as torradas e o café com leite.


Consegui, estive no workshop de Iniciação à Cozinha Vegetariana com Gabriela Oliveira.
O que fizemos por lá:
Seitan caseiro
Folhados de seitan
Strogonof de seitan e tempeh com cogumelos shiitake e marron
Tofu salteado com especiarias
Tabule de Quinoa
Salada de grão com abacate
Maionese vegetal (muito boa) e
Bolo delícia de morango e amora
A minha participação , além de tomar notas, foi cortar em quadradinhos algum Tofu
(e obtive um autógrafo da autora  no livro Cozinha Vegetariana para quem quer ser saudavel)

Desafio de Escrita dos Pássaros, 8º Tema: Carta para a criança que fui

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 Carta para a criança que fui
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Está-me cá a parecer que o melhor é não te dizer muito, mesmo quase nada, porque acho que até foste mais ou menos feliz, não quereria estragar isso.
O que é que eu te poderia dizer?
Para teres menos receio, ousares mais…mas depois ainda ousas demais, cais dentro de um buraco e não chegas a adolescente.
Abraça mais o presente e aqueles que estão aí contigo, mas sei que à tua maneira o estás a fazer. Lembro-me da intensidade com que vivia quase tudo, como do centro do universo um pequeno problema me poderia reduzir à minha real insignificância. Poderia dizer-te que tudo isso passará, não era assim tão mau, um dia não irás recordar nem metade desses dramas.
Talvez o único conselho que te poderia dar é: quando receberes de prenda aquele diário com chave, que ainda tenho por aqui, pensares um pouco melhor no que vais lá escrever, porque aquilo a nível dos temas está uma desgraça, e para teres cuidado com os erros, uma vergonha, afinal já tinhas dez anos, deverias ser capaz de escrever melhor (nem com o acordo ortográfico lá ias).
Pronto, seria só isto. Aproveita os bons momentos, vive-os, sê só um pouco mais corajosa se conseguires, e se quiseres escrever naquele Diário, esquece, ou adia  por um ano ou dois, ou cinco…

Desafio de Escrita dos Pássaros, 11º Tema: Um dia na vida de Spassky

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Acordo e saio para passeio matinal com humano ou humana a meu cargo. Adoro passear e quero sempre ir, mas não gosto lá muito quando chove.
No regresso levam-me para casa da avó porque vão trabalhar. Sei que ela é frágil e não pode levar-me a passear por isso em casa dela sou menos efusivo e farto-me de dormir. Ela tapa-me com uma mantinha.
Vêm-me buscar ao final do dia, às vezes humana traz a irmã (a tia, que está a escrever por mim) e  fico super entusiasmado quando os vejo, damos uma pequena volta ali perto e seguimos de carro para casa. Vou bem atento ao que se passa ao redor, e às vezes zango-me quando vejo algum dos meus inimigos na minha zona.
 A seguir como – comida de uma latinha, sempre pouca, poderia comer muito mais, e vamos passear. Aproveito para marcar território e socializar sobretudo com algumas cadelinhas. Ao jantar deles, peço, mas não me dão comida, só de vez em quando alguns biscoitos, poucos. Estou super atento para apanhar alguma coisa que possa cair ao chão, até guardanapos de papel, mas depois é uma luta para os conseguir comer.
 Percebo bem o que me dizem, mas normalmente gosto é de fazer a minha vontade, como seguir à frente nos passeios, e parar quando querem regressar, e posso até dificultar quando resolvem levar-me ao colo para casa, depende. Normalmente ganho muitas festas de todos, não percebo é porque não entendem que quero biscoitos quando fico a olhar fixamente para o lugar onde os guardam…

Desafio de Escrita dos Pássaros, 10º Tema: Já chegámos, já chegámos?

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- Já chegamos, já chegamos?
- Ainda não, mas não perguntaram ainda há pouco? Respondia pacientemente a minha mãe.
Olho pela janela. Sabia que ainda não tínhamos chegado, que faltava ainda muito, tanto! Uma das minhas irmãs dormia, a outra também parecia que ia adormecer, mas eu permanecia acordada (ao meu lado, a minha boneca Joaninha, que levava para todo o lado, e tinha inclusive uma pequena mala improvisada, com um pijama e dois vestidos: um azul feito pela minha avó e um com bolinhas amarelas, feito pela costureira de um retalho de tecido). Pela janela do lado direito via ora a estrada, ora os carros com que nos cruzávamos, pela do lado esquerdo, árvores, erva, monte. A paisagem ia mudando. Primeiro, muitos edifícios, depois só algumas casas, árvores altas e verdes, depois também rareavam as árvores, via mais erva e monte, espaçadas as oliveiras, e restos de incêndios, chagas castanhas e despidas no meio dos montes.
Os meus pais pareciam concentrados na viagem, o meu pai na condução, a minha mãe em mil e uma coisas para que tudo corresse bem.
Mais perto, sentíamos o cheiro das estevas – não havia ar condicionado, pelas janelas entreabertas entrava calor.
Sabia que quando chegássemos à aldeia, iria reencontrar os meus avós, alguns primos e primas que não reconhecia, e o meu pai iria rejuvenescer no papel de filho.
Por lá estava também a burrinha, que a minha irmã mais nova iria querer logo ver, os biscoitos em argola, o pão de trigo, a lareira, o chão da casa com tabuas compridas e não muito direitas, o silêncio à noite, e o cantar do galo de madrugada.
Queria hoje poder fazer essa viagem, o durante, enquanto não chegamos e o depois, vivo-o nas recordações.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 17º Tema - Luz e sombra

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Luz e sombra
Para haver sombra tem de haver luz, senão cairíamos na escuridão, tão completa que nada conseguiríamos ver.
O tema fez-me pensar na pintura, em como através do sombreado se consegue o volume, a dimensão.
Desde criança que achava que conseguia desenhar alguma coisa (completamente iludida, claro). Ainda no liceu descobri uma casa na Rua Sampaio Bruno onde vendiam telas e tintas. Fui lá com a minha mãe pelo menos uma vez, outras vezes sozinha. Para se entrar, tínhamos de passar primeiro por um corredor barbearia, com duas ou três cadeiras onde o Barbeiro atendia senhores e não sei se não parava por lá também um engraxador, com a caixa de madeira com o assento para o cliente e lugar para guardar a graxa e escova.
Subíamos por degraus de madeira inclinados e lá em cima, numa sala pequena cheia de luz, estavam as telas e tintas, todas bastante caras, mesmo com o desconto de estudante.
Fui para as mais baratas e fiz alguns retratos em pastel. Depois tentei o óleo mas comprei uma única tela e pequenina. Tentei pintar um céu, mas não correu lá muito bem. Planeei pintar por cima alguma outra coisa, até hoje.
Bem mais tarde, inscrevi-me num atelier de pintura indicado por um amigo. Primeiro ficava em Leça, perto de uma Casa Museu que fui visitar. Depois mudaram-se para uma casa antiga no Marquês – também com degraus de madeira inclinados e uma sala com muita luz e cheiro a tinta.
Adorei as aulas sobretudo pelos professores e pelos colegas  - chegámos a ter um jantar com disfarces no dia das Bruxas e uma exposição pelo Natal.
Tentei pintar uma dona-redonda e não correu lá muito bem, e depois, a partir de uma fotografia, um auto-retrato, com um resultado final ligeiramente melhor (pudera, tinha a fotografia aumentada).
Talvez um destes dias volte a tentar pintar e me lembre da luz, da sombra e deste desafio.
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Gémea da feiticeira da Branca Neve, não da bruxa, mas da rainha madrasta, na beleza e severidade. Não sorria, não revelava qualquer enternecimento pelas ervilhas a seu cargo. A sala dividida para a 1ª e para a 2ª classes, num Colégio de Padres, reguadas permitidas, e a ameaça de ser levado ao sério-severo Padre-director para os reincidentes impenitentes.
Não tive infantil, por minha culpa – com dois anos insistiu a Educadora que poderia ficar com a minha irmã de cinco. Desatei num choro mal me vi abandonada. Deixou‑me à porta para dar a aula e fechei-os à chave na sala. Um aluno herói teve de pular pela janela para os libertar. Na saída, a Educadora concordou com a minha mãe, eu era muito pequena.
Aos seis, estava entusiasmada com a primeira classe. Finalmente ia aprender a ler e a escrever: pá, pé, piu, pua, pipa, pópó, pai e papá, a tia, tua tia, titi, a tia tapa o pote.
Aventuras sucessivas e intensidade face ao hoje descolorido, mas serão mais fáceis os dias com menos variações.
No então, castigava a Professora cada erro do ditado com uma reguada. Na sala o Nuno triste levava às vezes vinte, o Mário sorridente, nenhuma.
Ensinou-me a Paula como escapar à hora da tabuada. Já sabia até à dos cinco, mas seria uma aventura. Era só preciso antes pedir para ir à casa de banho. Pedimos as duas, fugimos as duas. Enganámos a bruxa-feiticeira, mas lá fora, sozinhas, nada acontecia.
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Talvez fosse só professora, rodeada de bruxinhos alunos, barulhentos, infantis, a repetirem os erros uns dos outros, ano após ano, monotonia e cinzentismo, não era o que esperara, feiticeira desencantada.

Com ela aprendi a escrever e a ler, primeiro as legendas na televisão, depois os livros, os cinco e os sete e todos os outros.
Tive uma ideia
(mini-mini texto com memórias)

Quando eu era criança, uma vez fui ver com a minha mãe a definição de "Idiota" num Dicionário e, entre outras, estava lá: "alguém que tem muitas ideias".
Tornou-se depois algo entre nós, se eu dissesse que tinha tido uma ideia ou alguém o dissesse, responder-se que era muito idiota, brincando com o outro sentido.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Hoje dirigia-me à Rua Costa Cabral e pensei que por ali faltava uma livraria e o único local onde poderíamos encontrar livros, seria nos Correios, mas entretanto, numa Papelaria, descubro que atrás têm prateleiras com livros à venda (alguns em segunda mão).

sábado, 26 de janeiro de 2019

A nossa avó tirava com as pontas dos dedos a nata por cima do leite que tinha fervido
A mama fazia o mesmo.
Eu comecei também a fazê-lo, às vezes.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

orgulho-me do que não me lembro ou só me lembre vagamente como estando bem, de ter sido um bebe que raramente chorava
vivíamos num prédio, os vizinhos sabiam que a nossa mãe ia ter mais um filho e quando ela regressou tinham algum receio de perguntar o que sucedera porque não me ouviam chorar
e tudo isto depois da minha irmã mais velha ter sido terrível, muitas vezes por estar doente, outras vezes, descobriu a minha mãe que enquanto dormia, ia puxar o seu próprio cabelo, sentia a dor, acordava e chorava
houve um dia que ela com três anos, três anos e meio nos fechou às duas num quarto, chorou, vomitou, enquanto a nossa mãe preocupada com as duas não a conseguia convencer a dar de novo a volta à chave na fechadura, foi depois o empregado simpático de um café que ficava em baixo do prédio que a convenceu, ou fez cair a chave sobre um jornal ou entrou pela janela - penso que a terceira opção é que será a certa, e enquanto durava tudo isto, eu permaneci a dormir calmamente
quando era criança a minha avó dizia que eu tinha uma grande cabeça e notavam que eu tinha a testa alta não por me acharem cabeçuda mas inteligente
Às vezes, estou a fazer alguma coisa como fazia antes e parece-me sem sentido,
como se representasse o que era a minha vida
ou descobrisse agora que já não tinha sentido
porque podia acontecer o que aconteceu

quinta-feira, 29 de março de 2018

Ouvido na rua a senhor zangado que falava ao telemóvel: "Eu já te disse para não andares a chatear as pessoas, quando não tens nada para fazer, inventa alguma coisa"