Aprendi a jogar damas aos seis anos a ouvir as explicações do meu pai à minha irmã mais velha
blogue de retalhos, memórias e pensamentos, à procura de consolo e de sentido
terça-feira, 19 de abril de 2022
Iamos a Argozelo no Verão, talvez também na Páscoa. No Verão havia muito calor e o cheiro a estevas.
Lembro-me de uma ida que seria pela Páscoa - na fotografia na varanda estou com o meu kispo branco, teria talvez quinze anos. A nossa irmã mais nova tentou cativar um gato ou gata que andava por lá, mas acho que não conseguiu.
Sou a segunda filha de três. Há anos fiz as contas e fiquei com a ideia que a minha irmã mais velha tinha dois anos, nove meses e vinte e um dia quando eu nasci e eu tinha dois anos, quatro meses e vinte e um dias quando nasceu a nossa irmã mais nova.
Nasci e fui baptizada em Lisboa.
Nos primeiros seis anos de vida vivi em Paços-de-Ferreira, nos seis anos seguintes, em Gondomar, e depois no Porto.
No Verão havia duas viagens habituais, a Lisboa, onde vivia a mãe da nossa mãe e a Argozelo onde viviam os pais do meu pai.
O meu avô materno morreu quando eu tinha seis meses. A avó materna passava mais tempo connosco e a certa altura passou mesmo a morar em Gondomar. Contava-nos histórias, fazia-nos cafuné para dormirmos a sesta, dáva-nos a sopa e xi-corações.
Num Natal em que veio com prendas deu-me a minha boneca especial, a Joaninha que passei a levar para todo o lado.
quinta-feira, 31 de março de 2022
Há tanto que gostaria de contar sobre o meu pai.
Desde a segurança que sentia quando andava com ele de mão dada. Eu sempre com as mãos frias, ele tinha-as quentes quando eu era criança,
As nossas conversas enquanto eu crescia e me parecia certa a sua visão do mundo, um mundo duro e difícil, mas em que podiamos sobreviver seguindo talvez as suas cautelas e avisos.
Tenho a ideia de na casa em Gondomar (vivi lá dos meus seis aos doze anos) ter havido uma altura em que à noite nos contou histórias, como a da galinha dos ovos de ouro.
Lembro-me de uma noite em que estava doente, tão agoniada em que até pensei que ia morrer (mas era tão criança ou não estava assim tão mal para acreditar e receá-lo). Senti o coração a bater. Vi os meus pais meio preocupados, vomitei e fiquei melhor e o meu pai já o tinha previsto. Desde então que em princípio quando estou enjoada não fico com medo.
Aprendi a jogar damas com seis anos ao ouvi-lo a explicar as regras à minha irmã mais velha.
Sucessivamente fomos a sua companhia nas chamadas, e acho que também sucessivamente ele nos chamou a sua esperança. Por isso escolhi como a minha segunda cor preferida o verde (a seguir a ter escolhido o azul e antes de escolher o vermelho).
Quando era bem pequena ele foi para mim a pessoa mais importante do mundo. A minha mãe parecia-me mais séria e ocupada e mais próxima da minha irmã mais velha (mas depois enquanto crescia, fui-me aproximando mais dela).
Queriamos que tivesse orgulho em nós. Quando lhe falávamos de testes ou de notas já boas, ele dizia sempre que esperava mais para a próxima, um Muito Bom a seguir a um Bom, um Excelente a seguir a um Muito Bom. Mesmo se trouxessemos o Excelente não nos elogiava directamente. Fiquei admirada um dia em que o ouvi elogiar, não sei se às três, se só a minha irmã mais velha que não estava presente, a uns conhecidos.
TInha "repentes" de zanga que passavam depressa.
sábado, 18 de dezembro de 2021
Sinto falta dos meus pais, todos os dias, nesta altura do Natal, noutras alturas, quando estou para baixo, quando algo me alegra. E depois também vem a saudade da minha avó de Lisboa, do avô que já não conheci porque morreu quando eu tinha seis meses, mas porque escutei tanto sobre ele, até parece que me lembro dele, dos avós de Argozelo, do João, de mim, de como fui com eles ou no tempo em que eles cá estavam.
Tenho pensado no que me liga aos meus pais, no antes e no depois. Com a minha mãe, o gostar de passear, de experimentar algo novo, a música, o comprar com desconto e qualidade, (I. terá dela o gostar de ter tudo limpo e arrumado, A. a arte de se arranjar e vestir, o gostar de todos os animais) no depois, o cozinhar.
Do meu pai, a visão do mundo - gostava das nossas conversas, às vezes quando estávamos a ir a ou a regressar de algum lado, embora me pareça que ele era mais pessimista, talvez por muito do que viveu, a nossa visão do mundo coincidiria ou o que ouvi dele influenciou-me a ver o mundo como ele o via. As explosões que ele tinha e eu tento não ter, mas o passar depois, não ficar a remoer. O reagir com tristeza e raiva, mas não depressão.
terça-feira, 3 de agosto de 2021
Recordações
Em Argoselo ficávamos na casa dos meus avós, três casas seguidas, uma construída pelo avó, outra pelo bisavô, a terceira mais caída, e uma parte nova atrás, com madeira mais clara, onde depois tinham construído dois quartos e a casa de banho. Havia uma ponte entre casas de onde se via o quintal. À noite os sons eram diferentes. De manhã ouvíamos os galos.
Tenho uma ideia de ter estado com o meu avô na varanda da casa mais velha e de lá haver espigas de milho.
Ouvir como eram plantadas as batatas.
A avozinha Gracinda oferecia-nos biscoitos argolas e chocolates brancos. Dava-nos medalhinhas, acho que moedas também, que entregávamos à nossa mãe que as guardava.
Entrava-se pela cozinha, com lareira e fogão e panelas azuis.
Em baixo era guardada uma burrinha. Às vezes íamos ver os campos com ela. Duas das propriedades eram especiais por terem água, Miozinho e as Lagoas.
Íamos para lá no Verão e cheirava a estevas. Nos campos havia uvas moscatel.
Havia a Festa de S. Bartolomeu no dia 24 de Agosto.
Na casa da minha avó em Lisboa, o 1º ou 2º andar esquerdo, acho que o nº86 de um prédio da Avenida Duque d'Avila que já não existe, os tectos eram altos e decorados. Um corredor comprido levava às divisões. No início a sala com uma pele de leão e o piano que dava para o quarto dos avós. ao fundo a casa de jantar com mobília escura, paredes vermelha, a marquise que era o escritório do avô e ao lado a cozinha, também com um marquise onde havia um quartinho com uma pia. A casa de banho tinha uma tina/banheira com pés e um chão de quadrados brancos e pretos, qual tabuleiro de damas ou xadrez.No corredor uma dispensa onde guardavam um cavalinho de brincar e onde encontrámos uma harmónica que eu aprendi a tocar. Bebíamos leite ou café com leite por canecas.
À noite ouvíamos o Metropolitano, comboios debaixo do chão. No meio da avenida, árvores. Havia dois passeios habituais, ao Jardim Zoológico e ao Parque Eduardo VII.
Havia na esquina uma leitaria famosa com galões escuros.
Em cada viagem reencontrávamos esses espaços diferentes.
Casa até aos meus seis anos era o apartamento em Paços de Ferreira, dos seis aos doze a casa em Gondomar, com um quintal com abóboras e galinhas, e depois a casa no Porto, na rua larga com passeios e na altura pouco trânsito onde podíamos jogar badmington.
Quando eramos crianças e no início da adolescência tínhamos normalmente duas pequenas viagens no Verão. A casa dos avós paternos em Argozelo de carro. A casa da avozinha em Lisboa, mais de comboio ou camionete.
Fazia muito calor. O carro do meu pai não tinha ar condicionado. Não sei se nessa altura já algum carro o teria, talvez carros muito caros. Havia dois pontos críticos no caminho para Argozelo, as voltas do Marão e as voltas de Murça. A minha mãe vestia-nos com vestidos bonitos para vermos os nossos avós, mas com o calor deixava-nos tirar o vestido e ficávamos em combinação. Havia paragens para comprar figos e numa fonte de água fresquinha no Marão.
Para Lisboa de camionete lembro-me das paragens nas estações de serviço em que as filas para a casa de banho das senhoras eram sempre enormes. Não percebia então como é que os homens se despachavam tão mais depressa.
Houve uma vez em que pelo trânsito a camionete seguia atrasada e uma das minhas irmãs estava apertada. A minha mãe foi pedir ao condutor para parar. Já atrasado ele não queria mas vários passageiros pediram-lhe para parar pela menina. Quando a camionete parou, saíram tantos passageiros apertados que foi difícil à minha mãe encontrar uma árvore ou arbusto para ir com a minha irmã.
Lembro também das ideias da minha irmã mais nova para não enjoarmos na viagem. Uma vez com a teoria que tínhamos de comer maçãs, outra bolos de gema. Acho que nenhuma das teorias resultou.
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
28 de Julho de 2021 - Alcino Do Fundo Lopes
1º Aniversário
À tarde vi um carro parecido com o último do meu pai, um BMW cinzento. Pouco depois saí a pé, passei por locais onde estive com ele ou fui lá por ele. A loja de roupa na Rua da Constituição, a que se chama Lisboa no Porto na Costa Cabral. Antes o espaço da antiga Confeitaria Lima 5, agora fechada, depois de ter passado para outra gerência que não se comparava à anterior. Na primeira havia uma mesa redonda com chocolates e bombons entre as portas, as mesas e as luzes eram amarelas, quentes e convidativas. Fresco no Verão, quente no Inverno. Fui lá com o meu pai pelas natas que ele dizia serem as melhores. Fui lá mais tarde comprar natas para ele. Passei ao pé da Confeitaria Eça onde fui com ele tomar café, no tempo em que eu não gostava de café e pedia um carioca, e ofereciam a opção por paus de canela em vez de colheres. No final o meu pai abria o porta-moedas para pagar o café e carioca e deixava também uma moedinha para o funcionário que nos atendia. Era lá que ele ia comprar o bolo-rei pelo Natal ou miniaturas. Na Praça Velasquez, agora Francisco Sá Carneiro, os Cafés Bom-Dia e Velasquez. O meu pai ia lá tomar café ao fim-de-semana e à noite durante a semana. Tinha um grupo de conhecidos e amigos e ficavam lá a conversar. Na Confeitaria Cristal Palace foi antes a Primazia onde ao fim de semana o meu pai comprava regueifa, às vezes fiambre, não sei se as latas de atum tenório para um almoço de vez em quando.
Fui a uma missa com as minhas irmãs e o Paulo. Disseram o seu nome duas vezes, Alcino Do Fundo Lopes. Pensei no que ele diria sobre o Padre se estivesse ali. Reparei em duas senhoras de idade com cabelos brancos, brilhantes e lindos.
quinta-feira, 1 de julho de 2021
Gosto de colocar numa das primeiras páginas dos livros novos, a data e o local onde os comprei porque o meu pai o fazia.
Quando tirava um desses livros da estante pensava por instantes, e antes de o começar a ler, no momento em que o comprou, o sítio, normalmente uma cidade, onde estava, a idade que ele tinha na altura (num ano em que eu ainda não tinha nascido).
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
Não sei se são bem memórias e não serão antes ecos delas, de determinadas idades e estados, ter catorze anos, adolescente num dia de chuva, em que pudesse ter ido com a minha mãe a compras ou a uma consulta, no centro do Porto e fossemos lanchar ou ela comprasse algo para levar para o lanche. Ter sido muito magra, não ligar para roupas, meio viver nos livros que na altura estivesse a ler, e sobretudo, ter ali, perto, a minha mãe, referência, aconchego, segurança, exemplo, casa.