blogue de retalhos, memórias e pensamentos, à procura de consolo e de sentido
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Alcino do Fundo Lopes
Nasceu a 3 de Fevereiro de 1925 em Argozelo, concelho Vimioso, distrito de Bragança, filho de Abediel Victor Lopes e de Gracinda Luís do Fundo. Seria então uma aldeia muito isolada pelo Inverno rigoroso. Quando foi possível registá-lo na Conservatória em Vimioso, para se evitar a multa, foi indicada outra data, mais de um mês depois, 8 de Março.
Tinha um irmão mais velho que morreu com sarampo quando ele era bebé. Teve outro irmão a seguir a ele que morreu em bebe, e um irmão mais novo catorze anos que sobreviveu. Eram tempos duros.
O seu pai comerciante de peles andava pelas feiras e também se terá dedicado ao contrabando - Espanha ficava muito perto (nessa altura pelo Alentejo o meu trisavô Pepe era guarda de fronteira). Uma vez que acompanhou o pai a uma feira este comprou-lhe uma bola, mas quando regressaram a casa, a sua mãe condenou o gasto deitando a bola fora.
Teve uma avó paterna que o amava e mimava, mas morreu cedo de escorbuto.
Fez o liceu em Bragança. Uma vez, conseguiu acompanhar uns soldados numa caminhada de 5 kms para o regresso a casa.
Entrou na Universidade, na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa. A viagem de comboio levava um dia. Tinha pouco dinheiro e correu as ruas da capital em busca de pensões próximas e com as melhores condições. O curso era difícil e tinham de ficar a estudar enquanto viam estudantes de Direito a irem para o cinema de tarde. Coincidiu o seu tempo de faculdade com a 2ª Guerra Mundial e com o racionamento. Nas pensões a comida era pouca e má. Com 1,72 pesava quarenta e tal quilos. Por isso foi rejeitado para o Serviço Militar.
Houve uma vez em que com um primo que também estudava em Lisboa, responderam a um convite que era para dois professores da Universidade (e não para eles) e foram a um almoço memorável no Hotel do Luso.
Obtida a licenciatura trabalhou em Lisboa num Laboratório na pasteurização do leite.
Conheceu a minha mãe e casaram (depois de duas marcações falhadas e a recusa do Padre porque o meu avô que queria uma nora da terra enviava um telegrama dizendo-se doente, a morrer, sem o estar).
Contou a minha mãe como se conhecerem, que se "zangou" porque no Eléctrico ele ia virado a olhar para ela, mas depois comentou com uma amiga que tinha gostado dele. Foi pela janela com sinais que lhe pediu depois em namoro (os dois muito bonitos, como actores de cinema).
Depois de casada, em viagens a Argozelo a minha mãe viu neve e uma vez um lobo (quando era criança uma das razões para gostar de ir a Argozelo visitar os meus avós era ver como o meu pai parecia mais novo ao pé deles).
Ia muitas vezes a chamadas (algumas vezes levava uma ou duas das filhas com ele, se fosse de tarde). Teve sucessivamente vários carros, Ford, Fiat e BMW. Quando chegava a casa buzinava e quando éramos crianças íamos a correr ter com ele.
Contou-nos como tirou a carta de condução - o Engenheiro soube que ele era Veterinário e começou a conversar com ele, não sei se para o consultar, e sobre a condução colocou-lhe uma questão, o que fazer se à sua frente se atravessasse uma bola? A resposta era travar porque atrás viria uma criança.
Concorreu a veterinário municipal e ficou colocado em Paços-de-Ferreira, depois em Gondomar.
Os meus pais apenas conseguiram ter um bebé, a minha irmã Isabel, cinco anos após se terem casado. A primeira neta dos dois lados, um milagre. Depois seguiram-se mais duas, Gabriela e Ângela. Antes das filhas, nos fins-de-semana, passeavam à volta de Passos-de-Ferreira. Às vezes iam visitar uns tios a Penafiel. Iam a uma confeitaria lanchar, o seu bolo preferido seria na altura o bolo de arroz, e tiravam fotografias.
Teve cancro, passou por duas cirurgias, quase morreu (eu era muito pequena na altura e não soube como tinha sido grave).
Viveu num apartamento arrendado em Paços de Ferreira e na casa de função em Gondomar. Aos 52 anos comprou uma casa no Porto.
Era muito dedicado ao trabalho. Ia a chamadas de noite e ao fim-de-semana e não tirava férias, apenas alguns dias para as visitas no Verão a Lisboa e a Argozelo.
O meu pai, um homem inteligente, bonito e bom, marcado pelo que passou, pelas pessoas não muito boas com que infelizmente teve de lidar.
Gostava de História, especialmente da História de Portugal. Acho que chegou a dar aulas em Paços de Ferreira. Gostava de ir ao café ao fim-de-semana e a seguir ao jantar durante a semana, e ficar lá na conversa com o seu grupo de conhecidos. Gostava de ler o jornal e de pasteis de nata e de bifes.
Teve um AVC com 89 anos, mas em parte recuperou. Estava frágil, física e mentalmente. Caiu, magoou-se na cabeça e foi para o Hospital, em tempo de Covid, quando não o podíamos acompanhar na Urgência ou visitar na Enfermaria. Melhorou do traumatismo, mas apanhou uma pneumonia bacteriana. Permitiram-nos duas visitas para despedida e morreu pouco depois da segunda, no dia 28 de Julho de 2020 (ainda às vezes não parece verdade e sentimos muito a sua falta).

O seu pai comerciante de peles andava pelas feiras e também se terá dedicado ao contrabando - Espanha ficava muito perto (nessa altura pelo Alentejo o meu trisavô Pepe era guarda de fronteira). Uma vez que acompanhou o pai a uma feira este comprou-lhe uma bola, mas quando regressaram a casa, a sua mãe condenou o gasto deitando a bola fora.
Teve uma avó paterna que o amava e mimava, mas morreu cedo de escorbuto.
Fez o liceu em Bragança. Uma vez, conseguiu acompanhar uns soldados numa caminhada de 5 kms para o regresso a casa.
Entrou na Universidade, na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa. A viagem de comboio levava um dia. Tinha pouco dinheiro e correu as ruas da capital em busca de pensões próximas e com as melhores condições. O curso era difícil e tinham de ficar a estudar enquanto viam estudantes de Direito a irem para o cinema de tarde. Coincidiu o seu tempo de faculdade com a 2ª Guerra Mundial e com o racionamento. Nas pensões a comida era pouca e má. Com 1,72 pesava quarenta e tal quilos. Por isso foi rejeitado para o Serviço Militar.
Houve uma vez em que com um primo que também estudava em Lisboa, responderam a um convite que era para dois professores da Universidade (e não para eles) e foram a um almoço memorável no Hotel do Luso.
Obtida a licenciatura trabalhou em Lisboa num Laboratório na pasteurização do leite.
Conheceu a minha mãe e casaram (depois de duas marcações falhadas e a recusa do Padre porque o meu avô que queria uma nora da terra enviava um telegrama dizendo-se doente, a morrer, sem o estar).
Contou a minha mãe como se conhecerem, que se "zangou" porque no Eléctrico ele ia virado a olhar para ela, mas depois comentou com uma amiga que tinha gostado dele. Foi pela janela com sinais que lhe pediu depois em namoro (os dois muito bonitos, como actores de cinema).
Depois de casada, em viagens a Argozelo a minha mãe viu neve e uma vez um lobo (quando era criança uma das razões para gostar de ir a Argozelo visitar os meus avós era ver como o meu pai parecia mais novo ao pé deles).
Ia muitas vezes a chamadas (algumas vezes levava uma ou duas das filhas com ele, se fosse de tarde). Teve sucessivamente vários carros, Ford, Fiat e BMW. Quando chegava a casa buzinava e quando éramos crianças íamos a correr ter com ele.
Contou-nos como tirou a carta de condução - o Engenheiro soube que ele era Veterinário e começou a conversar com ele, não sei se para o consultar, e sobre a condução colocou-lhe uma questão, o que fazer se à sua frente se atravessasse uma bola? A resposta era travar porque atrás viria uma criança.
Concorreu a veterinário municipal e ficou colocado em Paços-de-Ferreira, depois em Gondomar.
Teve cancro, passou por duas cirurgias, quase morreu (eu era muito pequena na altura e não soube como tinha sido grave).
Viveu num apartamento arrendado em Paços de Ferreira e na casa de função em Gondomar. Aos 52 anos comprou uma casa no Porto.
Era muito dedicado ao trabalho. Ia a chamadas de noite e ao fim-de-semana e não tirava férias, apenas alguns dias para as visitas no Verão a Lisboa e a Argozelo.
O meu pai, um homem inteligente, bonito e bom, marcado pelo que passou, pelas pessoas não muito boas com que infelizmente teve de lidar.
Gostava de História, especialmente da História de Portugal. Acho que chegou a dar aulas em Paços de Ferreira. Gostava de ir ao café ao fim-de-semana e a seguir ao jantar durante a semana, e ficar lá na conversa com o seu grupo de conhecidos. Gostava de ler o jornal e de pasteis de nata e de bifes.
Teve um AVC com 89 anos, mas em parte recuperou. Estava frágil, física e mentalmente. Caiu, magoou-se na cabeça e foi para o Hospital, em tempo de Covid, quando não o podíamos acompanhar na Urgência ou visitar na Enfermaria. Melhorou do traumatismo, mas apanhou uma pneumonia bacteriana. Permitiram-nos duas visitas para despedida e morreu pouco depois da segunda, no dia 28 de Julho de 2020 (ainda às vezes não parece verdade e sentimos muito a sua falta).
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
A caneta
O papa queria a sua caneta.
Não me lembrava bem de como era, nem sabia onde estava.
Procurei-a nos lugares mais prováveis: as gavetas da secretária na sala e da cómoda no quarto. Não a encontrei.
Fui buscar uma minha nova que nunca tinha usado. Fora-me oferecida por uma amiga porque sim ou por colegas num aniversário.
Não a quis.
A dele escrevia muito bem. Muito melhor do que aquela que lhe trouxe e não quis sequer experimentar.
A dele acompanhou-o nos anos em que trabalhou como médico veterinário, mais de quarenta anos, para escrever e assinar receitas. Tê-la-á usado também nos contratos para compra de carro e da casa e na emissão de cheques – o meu pai não queria cartões. Tinha uma letra muito bonita, quando escrevia ou quando assinava o seu nome: Alcino Do Fundo Lopes.
Quando éramos crianças ainda não havia telemóveis e aprendemos a atender e a anotar as chamadas. Tínhamos de ficar com o nome e o número de telefone e uma ideia do que era preciso, como “tirar as secundinas” - algo relacionado com um parto complicado de uma vaca. Às vezes íamos com ele. Metia o carro por estradas secundárias ou caminhos de terra até chegar onde era preciso. Vinha ter com ele o lavrador ou criador. Quando havia cães a ladrar eu tinha medo e preferia ficar no carro, mas cheguei a brincar com os filhos quando estavam por lá.
Disse-lhe que o ajudaria a encontrar a caneta no dia seguinte. Não o fiz. Porque me esqueci ou tinha algo muito importante a fazer.
Dias depois o meu pai morreu.
Se agora encontrar a caneta acho que vou chorar.
Queria ter sido melhor e queria ter-lhe mostrado muito mais como gosto tanto dele.
domingo, 2 de agosto de 2020
Às vezes a dor parece insuportável e inultrapassável, outras vezes porque estava ocupada e a pensar em algo diferente, parece uma traição, uma traição que a vida continue.
Pensei que a dor maior era a morte da minha mãe, mas as dores não se comparam, não têm uma escala como não deve ter o amor. Agora dói tanto pelo meu pai. Queria tanto que ele estivesse aqui, queria ter-lhe mostrado mais como gosto tanto dele.
Pensei que a dor maior era a morte da minha mãe, mas as dores não se comparam, não têm uma escala como não deve ter o amor. Agora dói tanto pelo meu pai. Queria tanto que ele estivesse aqui, queria ter-lhe mostrado mais como gosto tanto dele.
terça-feira, 28 de julho de 2020
Preciso de um milagre
O meu pai caiu, magoou-se na cabeça e foi para o S. João. Por causa do Covid, estão suspensas as visitas, e é difícil conseguirmos ser atendidos pelo telefone. Quando nos atendem, às vezes fico animada, outras vezes fico com medo. Queria tanto que ele voltasse para casa e estivesse bem.
Em 27.7
Apanhou uma pneumonia com uma bactéria hospitalar. Deixaram que o fossemos visitar duas vezes, no dia 22.7, quando se falava em infecção respiratória, e hoje. No dia 22.7 parecia melhor, hoje, não estava bem. Lá pensei como o meu pai é um homem bonito, como teve uma vida difícil e em como queria que ele voltasse para casa connosco e estivesse bem.
Nós podemos chorar e rezar e não sei se posso ter esperança. Não sei o que fazer.
Em 28.7
Ele caiu no dia 14. Melhorou do traumatismo da queda mas está muito mal pela pneumonia. Precisamos de um milagre.
Gábi
Em 27.7
Apanhou uma pneumonia com uma bactéria hospitalar. Deixaram que o fossemos visitar duas vezes, no dia 22.7, quando se falava em infecção respiratória, e hoje. No dia 22.7 parecia melhor, hoje, não estava bem. Lá pensei como o meu pai é um homem bonito, como teve uma vida difícil e em como queria que ele voltasse para casa connosco e estivesse bem.
Nós podemos chorar e rezar e não sei se posso ter esperança. Não sei o que fazer.
Em 28.7
Ele caiu no dia 14. Melhorou do traumatismo da queda mas está muito mal pela pneumonia. Precisamos de um milagre.
Gábi
domingo, 5 de julho de 2020
Alcino Do Fundo Lopes
Aos cinco anos voei.
Estávamos no jardim em frente ao prédio onde morávamos e consegui que a minha irmã mais velha me emprestasse a sua bicicleta. Só tinha rodinhas de um dos lados, do outro podíamos cair se não a segurássemos, colocando a perna no chão quando parávamos.
Nesse final de tarde pedalei com força e ia depressa. Não via bem o chão, sentia a rapidez.
A roda de frente foi contra uma pedra que a travou e eu sai projectada.
Voei.
Lembro-me da sensação até à aterragem.
Ganhei um galo na testa e a vergonha de ter caído.
Depois tive de conformar-me com o meu triciclo azul. Tinha um defeito: com facilidade, levantava a frente, e caímos para trás. Depois de vários bate-cus, aprendi como fazer para o evitar. Mantinha-se o perigo para quem não o soubesse, como aconteceu ao colega que desafiou o meu aviso.
Continuei com o sonho de ter uma bicicleta, mas cresci e já não a esperava.
Tinha catorze anos, estava sol, e não deve ter sido pelos meus anos, porque nasci no Inverno.
Não me lembro de um aviso antes, nem de a escolher ou saber que aí vinha.
Para poder ser uma surpresa foi antes um segredo.
O meu pai trouxe-me uma bicicleta. Vermelha, e sem rodinhas.
Já não me lembrava de como andar. Ele estava comigo na rua quando ganhei coragem para pedalar e andei sozinha sem ele atrás a segurar-me. Acho que ele me disse para andar que ia segurar-me e eu andei. Lembrei-me de como era e de como colocar os pés no chão para não cair quando parava.
sábado, 7 de março de 2020
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.5
redonda
Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia.
Acordei e ouvi vozes, a minha avó a conversar com a minha mãe. Levantei-me e fui ter com elas.
Para que o Mundo possa permanecer quase tal como é, não me disseram como é o depois, apenas que existe um, mas não foi preciso dizerem-me para que ficasse então a saber, que não perdemos ninguém, permanecemos ainda que tenuemente ligados, e como haverá um reencontro, existe um sentido.
No resto do dia poderia fazer o que faço sempre, poderiam ter continuado comigo, ou poderia ter sido apenas uma visita breve, sem explicação, mas real.
A minha avó morreu quando eu tinha onze anos e depois dela houve outras perdas, mas aqui estou sobretudo a escrever sobre a primeira.
Quando acontece, o mundo vai ficando mais feio e vazio, e perco também os pedaços de mim de como era com eles, como deixei de ser neta quando deixei de ter avós.
O que mais desejava é esse reencontro ou enquanto estou viva, saber que é possível, que vai suceder, ter esperança ou fé.

Como é isto no depois
o não acreditar
o culpar-me, porque é que eu não estava lá
culpar-me II - tudo o que deveria ter feito diferente, tudo o que deveria ter feito e não fiz
o não dormir, ouvir o relógio a bater as horas, algo que antes não ouvia
o coração bater disparado como se tivesse estado a correr, durante as horas que não durmo - será um sinal de ansiedade?
a dormência
a raiva, porquê?
o medo, se isto aconteceu, tudo de tão terrivelmente mau pode continuar e voltar a suceder
as difíceis primeiras vezes, esta é a primeira vez no depois que vou trabalhar, ou que vou comprar o jornal, passo por este centro comercial, na vez anterior, no antes, não tinha sucedido, estava connosco, viva
a irrelevância que passa a ter o que antes pareceria bom, como ganhar o euromilhões, se eu ganhasse agora o euromilhões acho que iria chorar porque não tinha sucedido no antes quando podia dividir a felicidade por ganhar, fazer algo com o prémio pelo alguém que já cá não está
o torpor, será que já paguei este bolo que acabo de comprar? quase vou a sair sem o levar comigo, esqueço-me que o pousei sobre a mesa, esqueço-me que foi esse o objectivo que tracei, que me levou até ali
as hesitações sem sentido sobre questões do dia-a-dia nas quais posso ficar presa tempos inconcebíveis, quantas caixas de bolachas é que devo levar? duas ou três? quatro ou cinco?
se está um dia bonito, como é possível que o esteja? que pareça que tudo continua igual como se nada tivesse sucedido
dizerem-nos que é a lei da vida, como é que algo assim pode ser a lei da vida? mas ser capaz, pela idade (maturidade?) que tenho de ver sobretudo a intenção de consolar de quem o diz
como em outras situações em diferentes graus, não quero estar neste filme,
quero fugir mas sei que não é possível
pensar em ir algures, iludir-me que lá estarei melhor, saber que não será assim, a minha dor eu levo-a comigo para onde for
o que é que ajuda?
fazer algo por quem cá fica de quem gostamos e gosta de nós
fazer algo por quem foi, algo com sentido, que sabemos que gostaria
estar com quem gosta de nós, e que nos diz que gosta de nós
pensar não estamos sós
estás agora aqui comigo
escrever
pensar que em breve poderemos ir ao seu encontro
lembrar o que se fez de bem
pensar em como estava quem partiu, lembrar momentos maus normalmente por doença, preocupações, medos, para pensar já não sofre, está melhor
ter esperança, fé, acreditar
e ando também a seleccionar livros para ler
se alguém tiver outra sugestão quero saber qual é

Maria Eugénia Coelho Beltran Pepe Lopes - Geninha
o não acreditar
o culpar-me, porque é que eu não estava lá
culpar-me II - tudo o que deveria ter feito diferente, tudo o que deveria ter feito e não fiz
o não dormir, ouvir o relógio a bater as horas, algo que antes não ouvia
o coração bater disparado como se tivesse estado a correr, durante as horas que não durmo - será um sinal de ansiedade?
a dormência
a raiva, porquê?
o medo, se isto aconteceu, tudo de tão terrivelmente mau pode continuar e voltar a suceder
as difíceis primeiras vezes, esta é a primeira vez no depois que vou trabalhar, ou que vou comprar o jornal, passo por este centro comercial, na vez anterior, no antes, não tinha sucedido, estava connosco, viva
a irrelevância que passa a ter o que antes pareceria bom, como ganhar o euromilhões, se eu ganhasse agora o euromilhões acho que iria chorar porque não tinha sucedido no antes quando podia dividir a felicidade por ganhar, fazer algo com o prémio pelo alguém que já cá não está
o torpor, será que já paguei este bolo que acabo de comprar? quase vou a sair sem o levar comigo, esqueço-me que o pousei sobre a mesa, esqueço-me que foi esse o objectivo que tracei, que me levou até ali
as hesitações sem sentido sobre questões do dia-a-dia nas quais posso ficar presa tempos inconcebíveis, quantas caixas de bolachas é que devo levar? duas ou três? quatro ou cinco?
se está um dia bonito, como é possível que o esteja? que pareça que tudo continua igual como se nada tivesse sucedido
dizerem-nos que é a lei da vida, como é que algo assim pode ser a lei da vida? mas ser capaz, pela idade (maturidade?) que tenho de ver sobretudo a intenção de consolar de quem o diz
como em outras situações em diferentes graus, não quero estar neste filme,
quero fugir mas sei que não é possível
pensar em ir algures, iludir-me que lá estarei melhor, saber que não será assim, a minha dor eu levo-a comigo para onde for
o que é que ajuda?
fazer algo por quem cá fica de quem gostamos e gosta de nós
fazer algo por quem foi, algo com sentido, que sabemos que gostaria
estar com quem gosta de nós, e que nos diz que gosta de nós
pensar não estamos sós
estás agora aqui comigo
escrever
pensar que em breve poderemos ir ao seu encontro
lembrar o que se fez de bem
pensar em como estava quem partiu, lembrar momentos maus normalmente por doença, preocupações, medos, para pensar já não sofre, está melhor
ter esperança, fé, acreditar
e ando também a seleccionar livros para ler
se alguém tiver outra sugestão quero saber qual é
Maria Eugénia Coelho Beltran Pepe Lopes - Geninha
Post sem título - Maria Eugénia Coelho Beltran Pepe Lopes
"Há coisas que não queremos que aconteçam, mas temos de aceitar, coisas que não queremos saber, mas temos de ouvir e pessoas sem as quais não podemos viver, mas temos de deixar partir."
Autor Desconhecido
(como?)
Na Corda Bamba
Se olharmos com atenção
para a vida de qualquer pessoa, veremos que viver é andar na corda bamba e será
a forma como enfrentamos as dificuldades que nos define.
Maria Eugénia Coelho
Beltran Pepe Lopes nasceu a 27 de Outubro de 1932.
Os seus pais, Eugénio
Beltran Pepe e Manuela da Conceição Andrade Coelho, tinham tido antes dois
filhos, Manuel e Luísa. O primeiro morreu à nascença – imagino a parteira a
baptizá-lo à pressa - a segunda, quando ainda não tinha dois anos, de meningite
tuberculosa. Morreram antes do seu nascimento, e cresceu como filha única.
Faltou-lhe nos momentos difíceis o apoio que poderia ter encontrado nos irmãos,
mas teve um primo, cerca de um ano mais novo, com o mesmo nome, Eugénio, que
era como um irmão. Ensinou-a a nadar bruços e ela aprendeu tão bem que até
nadou no mar alto.
Começou a andar com a
ajuda da cadelinha Miss, agarrando-se a ela para os primeiros passos. Depois
dela morrer, sendo ainda criança, recordava-a com saudade “a minha Miss que Deus
tem” e quem a ouvia, sem ter conhecido a Miss, pensava que falava de uma
pessoa, uma ama ou preceptora (teve depois ainda pequena, o Jolie - já o Come-se-há
em Meleças adoptou o seu pai - e em adulta, quando morámos em Gondomar, o Fiel
e o Wolf, e no Porto, o Tuiqui – não quis ter mais nenhum pelo desgosto em os
perder).
Em criança a sua mãe
gostava de manter a casa – o 2º andar de um prédio na Duque d’Ávila impecável.
Um dia levou um susto porque lhe vieram dizer que a filha de cinco ou seis que
deveria estar na marquise, estava a brincar no pátio. Depois de ter observado
um menino mais velho a fazê-lo, tinha arranjado forma de chegar lá, descendo
pelo exterior, talvez agarrando-se às saliências que encontrou na parede.
Quando era pequenina, a
mãe gostava de a mascarar no Carnaval. Ela gostou da fantasia de ratinho por
ser quente, já não tanto da do traje regional, de minhota ou saloia, por com
elas ter frio.
O pai levava-a para
passear e trazia-lhe para provar comidas descritas em livros (do Emílio Salgari
e outros) como água de coco. Ultrapassou doenças graves como a difteria, sem os
remédios actuais. Para a ajudar na convalescença o seu pai arranjou a Vivenda
Geninha em Meleças.
Morava em Lisboa com os
seus pais e entrou para o Colégio Alemão logo na infantil (sonhava em alemão).
Nessa altura era loura e nos retratos aparece com tranças compridas. Os colegas
brincaram com o seu primeiro apelido, imitando um coelho. Para a reconciliar
com o seu nome, a mãe Manuela levou-o ao avô Joaquim Guilherme Andrade Coelho
que lhe contou sobre homens ilustres que tinham o mesmo apelido.
Quando no colégio
aprendeu equitação. Eram crianças e gostavam de uma égua mansinha. Uma vez o
professor destinou-lhe um cavalo temido que tinha vindo do exército. Talvez por
nesse dia estar aborrecido com alguma coisa, o professor deu uma palmada no
cavalo que partiu a galope. Ela conseguiu manter-se sobre o cavalo, sem cair.
Quando ia a casa dos
colegas com ambos ou um dos progenitores de nacionalidade alemã, gostava de
como eram práticas – sem os naperons e bibelots das casas portuguesas, e de
beber cacau quente.
Durante o período da
Segunda Guerra Mundial irmãos dos seus colegas combateram e morreram na guerra -
os pais de um deles, professores no Colégio, quando o filho mais velho morreu,
não vestiram luto porque o filho tinha morrido pela pátria.
Em Lisboa seguiam-se as
instruções para pintar os vidros de azul e colocar protecções para que no caso
de um bombardeamento os vidros não se partissem e entrassem para o interior das
casas, ferindo os seus ocupantes.
Houve racionamento com
senhas. A minha avó tentou fazer pão, mas o resultado não foi muito feliz,
saíram uns pãezinhos meio insonsos e apesar do meu avô ter dito que a culpa era
do forno, não voltou a tentar.
Surgiram novos penteados
femininos, “à refugiada”, cabelo preso, em rabo de cavalo ou numa banana, ou
curto, penteado pela própria, sem ir ao Cabeleireiro.
Viam-se muito
estrangeiros, sobretudo artistas que tinham fugido e queriam ir para os Estados
Unidos.
No final da guerra o
Colégio Alemão fechou e a minha mãe passou a ter aulas com uma professora
contratada que a influenciou a escolher ciências. Via as colegas que seguiram
línguas com dificuldades no alemão que ela ultrapassava com facilidade. Acabou
por não ir para a Faculdade.
Cortou o cabelo que
escurecera curto. Sabia vestir-se bem, parecia uma artista de cinema.
Sem precisar acompanhou a
dieta de uma amiga de leite e bananas que queria emagrecer para o casamento (e
conseguiu).
Conheceu o meu pai,
médico veterinário, por ele ter arranjado um quarto perto. Queixou-se da vez em
que no Eléctrico ele veio o caminho todo voltado para trás a olhar para ela.
Passou a rondar o prédio onde ela morava, perguntando-lhe por gestos para a
janela se o aceitava. Passou pelo crivo dos futuros sogros.
Também o pai dele veio de
Trás-os-Montes conhecê-la. Aparentemente gostou dela, mas queria que o filho
casasse com uma prima da mesma terra. Marcaram o casamento e pouco antes chegou
um telegrama anunciando que o pai estava a morrer. O noivo largou tudo para ir ter
com ele e descobrir que afinal estava bem. Isso sucedeu duas vezes. O Padre
anunciou que com aquelas desmarcações já não os casava. A minha mãe também
aborrecida com o sucedido foi para casa de uns primos no Algarve, onde o meu
pai foi procurá-la. Conseguiu convencê-la a dar-lhe mais uma oportunidade e
casaram pelo civil. A mãe da noiva que antes até simpatizava com o noivo não
quis ir, mas o meu avô foi assistir.
O meu pai concorreu e foi
colocado em Paços de Ferreira. Foram morar para lá os dois, numa altura em que
ali as mulheres não iam a cafés ou usavam calças em vez de saias, não havia
televisão e estava longe da família e dos amigos. Terá sido aí que começou a
desenvolver uma depressão.
Ao final de cinco anos
conseguiram ter uma filha, um bebé lindo e especial, a minha irmã mais velha, Isabel,
logo adorada como primeira neta dos dois lados da família. Seguiram-se mais
duas filhas. Antes do nascimento da terceira, morreu o seu pai, e para ajudar a
mãe a recuperar pediu-lhe para a ajudar a tomar conta da neta mais nova (o que
ela fez assim como das outras até ter de nos deixar cerca de oito anos depois).
Esteve ao lado do marido,
nos problemas do seu trabalho e de família, na doença e cirurgias, ajudou-o a
voltar à vida.
Desde criança em que foi
operada ao apêndice sendo a anestesia com éter (foi para a mesa de operações
nos braços do pai) passou por várias cirurgias, ao peito, ao útero, ao braço
que partiu numa queda, a úlcera no duodeno, sofreu da tiróide, da vesícula, de
osteoporose, de divertículos, sempre com coragem para querer levantar-se no dia
seguinte.
Dona-de-casa, cozinheira,
costureira, enfermeira, explicadora, professora, cabeleireira, manicura,
conselheira.
Melhor mãe do mundo,
centro do universo, companheira nos bons e maus momentos, a proteger e a torcer
pelas filhas.
Foi apanhada em casa, de
surpresa, pela morte, em 5 de Outubro de 2017, antes do seu aniversário.
Foi com espírito de
aventura, amor e coragem que enfrentou a corda bamba da vida.
Eugénio José Pepe, nascido a 12 de Outubro de 1934/22 de Agosto de 2019, com 84 anos de idade
Aqui:
Em 2009, Eugénio Pepe foi distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores e em março último foi premiado pelo Teatro Maria Vitória com as Máscaras de Ouro."
Para nós o primo Eugénio, filho da tia Laura, irmã do meu avó com o mesmo nome, Eugénio Pepe, pai da minha mãe, também uma pessoa excepcional, mas que só pude conhecer pelo que me contavam dele porque morreu quando eu tinha seis meses.
Estive poucas vezes com ele, sei que ele e a minha mãe gostavam um do outro como irmãos. Vi fotografias dos dois pequenos, ouvi as histórias que a minha mãe contava, e o que ela contava sobre ele ser uma pessoa boa, animada e positiva era confirmado pela sua voz e nos breves encontros.
Aqui:
"O compositor Eugénio Pepe, criador da música 'Vamos Dormir', morreu hoje, aos 84 anos, na Casa do Artista, em Lisboa, onde se encontrava, disse à Lusa fonte da instituição.
Nascido em 12 de outubro de 1934, Eugénio José Pepe Costa "foi um dos músicos mais polivalentes na década de 1960, quer como intérprete quer como compositor", como surge descrito no programa Gramofone, de José Carlos Callixto, na RTP.
Vocalista, pianista de boite e compositor, Eugénio Pepe dirigia o seu conjunto, de nome Trio Eugénio Pepe, "onde o humor marcava quase sempre presença".
"O primeiro disco em que surge como titular é editado em 1965 pelo selo Alvorada, da Rádio Triunfo, e inclui as músicas 'Só Bossa Nova', 'Agora Choro à Vontade', 'O Zé da Ribeira' e 'Noiva do Alentejo', todas de sua autoria", pode ler-se na página da RTP, que realça que, no ano seguinte, Pepe fundou a editora Riso & Ritmo, com os atores Armando Cortez e Francisco Nicholson.
No disco seguinte, 'O Fado em Bossa Nova', Pepe apresenta arranjos em bossa nova para clássicos como 'Lisboa à Noite', 'Rua dos Meus Ciúmes' ou 'Rosinha dos Limões', seguindo-se em 1966 um EP que contém "Pepe Fado" que, já neste século, seria alvo de uma versão pelo Real Combo Lisbonense.
"Nos anos 1960, Carlos do Carmo, Tony de Matos ou Ada de Castro tinham sido alguns dos nomes a darem voz às suas composições", refere ainda o Gramofone.
Em 1969, a canção infantil 'Vamos Dormir', com letra de Alexandre O'Neill e música de Eugénio Pepe, é publicada em 'single', levando uma geração de crianças a ir para a cama e sendo precursora da música do famoso boneco Vitinho.
Em 2009, Eugénio Pepe foi distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores e em março último foi premiado pelo Teatro Maria Vitória com as Máscaras de Ouro."Estive poucas vezes com ele, sei que ele e a minha mãe gostavam um do outro como irmãos. Vi fotografias dos dois pequenos, ouvi as histórias que a minha mãe contava, e o que ela contava sobre ele ser uma pessoa boa, animada e positiva era confirmado pela sua voz e nos breves encontros.
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