Não sei se são bem memórias e não serão antes ecos delas, de determinadas idades e estados, ter catorze anos, adolescente num dia de chuva, em que pudesse ter ido com a minha mãe a compras ou a uma consulta, no centro do Porto e fossemos lanchar ou ela comprasse algo para levar para o lanche. Ter sido muito magra, não ligar para roupas, meio viver nos livros que na altura estivesse a ler, e sobretudo, ter ali, perto, a minha mãe, referência, aconchego, segurança, exemplo, casa.
blogue de retalhos, memórias e pensamentos, à procura de consolo e de sentido
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Às vezes olho para trás e imagino/queria diferente momentos, assim como a pessoa que eu era em cada um, a existirem em simultâneo e com a realidade actual (pudesse eu escolher aquele em que me refugiaria).
Estamos presos no presente, estou a viver este momento, mas logo passa a ser passado. Não posso alterar o que tenha feito ou dito e que o fiz, não fiz, disse ou não disse, pode pesar e condicionar o presente e o futuro, o que ainda não é e pode nunca vir a ser.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Eu nasci no mês de nascimento do meu pai, Fevereiro, e no dia de nascimento da minha mãe, 27.
O meu pai nasceu a 3 de Fevereiro de 1925 na então Aldeia de Argozelo, em pleno Inverno adiaram a ida à Conservatória para o registarem e para evitarem a multa, indicaram como data para o seu nascimento o dia 8 de Março.
A minha mãe nasceu a 27 de Outubro de 1932, em Lisboa.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
5 de Outubro de 2020
Trigésimo aniversário
Missa às 19.15
A Igreja cheia, muitas pessoas morreram neste dia
Do que nos falou o Padre
Amar o próximo, o que está ao nosso lado e o que nos é próximo pelo afecto
termos tempo para o outro, para amarmos e ser amados
Aqueles que nos levaram lá, estão já na casa de Deus, na casa do Pai.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Alcino do Fundo Lopes
O seu pai comerciante de peles andava pelas feiras e também se terá dedicado ao contrabando - Espanha ficava muito perto (nessa altura pelo Alentejo o meu trisavô Pepe era guarda de fronteira). Uma vez que acompanhou o pai a uma feira este comprou-lhe uma bola, mas quando regressaram a casa, a sua mãe condenou o gasto deitando a bola fora.
Teve uma avó paterna que o amava e mimava, mas morreu cedo de escorbuto.
Fez o liceu em Bragança. Uma vez, conseguiu acompanhar uns soldados numa caminhada de 5 kms para o regresso a casa.
Entrou na Universidade, na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa. A viagem de comboio levava um dia. Tinha pouco dinheiro e correu as ruas da capital em busca de pensões próximas e com as melhores condições. O curso era difícil e tinham de ficar a estudar enquanto viam estudantes de Direito a irem para o cinema de tarde. Coincidiu o seu tempo de faculdade com a 2ª Guerra Mundial e com o racionamento. Nas pensões a comida era pouca e má. Com 1,72 pesava quarenta e tal quilos. Por isso foi rejeitado para o Serviço Militar.
Houve uma vez em que com um primo que também estudava em Lisboa, responderam a um convite que era para dois professores da Universidade (e não para eles) e foram a um almoço memorável no Hotel do Luso.
Obtida a licenciatura trabalhou em Lisboa num Laboratório na pasteurização do leite.
Conheceu a minha mãe e casaram (depois de duas marcações falhadas e a recusa do Padre porque o meu avô que queria uma nora da terra enviava um telegrama dizendo-se doente, a morrer, sem o estar).
Contou a minha mãe como se conhecerem, que se "zangou" porque no Eléctrico ele ia virado a olhar para ela, mas depois comentou com uma amiga que tinha gostado dele. Foi pela janela com sinais que lhe pediu depois em namoro (os dois muito bonitos, como actores de cinema).
Depois de casada, em viagens a Argozelo a minha mãe viu neve e uma vez um lobo (quando era criança uma das razões para gostar de ir a Argozelo visitar os meus avós era ver como o meu pai parecia mais novo ao pé deles).
Ia muitas vezes a chamadas (algumas vezes levava uma ou duas das filhas com ele, se fosse de tarde). Teve sucessivamente vários carros, Ford, Fiat e BMW. Quando chegava a casa buzinava e quando éramos crianças íamos a correr ter com ele.
Contou-nos como tirou a carta de condução - o Engenheiro soube que ele era Veterinário e começou a conversar com ele, não sei se para o consultar, e sobre a condução colocou-lhe uma questão, o que fazer se à sua frente se atravessasse uma bola? A resposta era travar porque atrás viria uma criança.
Concorreu a veterinário municipal e ficou colocado em Paços-de-Ferreira, depois em Gondomar.
Teve cancro, passou por duas cirurgias, quase morreu (eu era muito pequena na altura e não soube como tinha sido grave).
Viveu num apartamento arrendado em Paços de Ferreira e na casa de função em Gondomar. Aos 52 anos comprou uma casa no Porto.
Era muito dedicado ao trabalho. Ia a chamadas de noite e ao fim-de-semana e não tirava férias, apenas alguns dias para as visitas no Verão a Lisboa e a Argozelo.
O meu pai, um homem inteligente, bonito e bom, marcado pelo que passou, pelas pessoas não muito boas com que infelizmente teve de lidar.
Gostava de História, especialmente da História de Portugal. Acho que chegou a dar aulas em Paços de Ferreira. Gostava de ir ao café ao fim-de-semana e a seguir ao jantar durante a semana, e ficar lá na conversa com o seu grupo de conhecidos. Gostava de ler o jornal e de pasteis de nata e de bifes.
Teve um AVC com 89 anos, mas em parte recuperou. Estava frágil, física e mentalmente. Caiu, magoou-se na cabeça e foi para o Hospital, em tempo de Covid, quando não o podíamos acompanhar na Urgência ou visitar na Enfermaria. Melhorou do traumatismo, mas apanhou uma pneumonia bacteriana. Permitiram-nos duas visitas para despedida e morreu pouco depois da segunda, no dia 28 de Julho de 2020 (ainda às vezes não parece verdade e sentimos muito a sua falta).
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
A caneta
domingo, 2 de agosto de 2020
Pensei que a dor maior era a morte da minha mãe, mas as dores não se comparam, não têm uma escala como não deve ter o amor. Agora dói tanto pelo meu pai. Queria tanto que ele estivesse aqui, queria ter-lhe mostrado mais como gosto tanto dele.
terça-feira, 28 de julho de 2020
Preciso de um milagre
Em 27.7
Apanhou uma pneumonia com uma bactéria hospitalar. Deixaram que o fossemos visitar duas vezes, no dia 22.7, quando se falava em infecção respiratória, e hoje. No dia 22.7 parecia melhor, hoje, não estava bem. Lá pensei como o meu pai é um homem bonito, como teve uma vida difícil e em como queria que ele voltasse para casa connosco e estivesse bem.
Nós podemos chorar e rezar e não sei se posso ter esperança. Não sei o que fazer.
Em 28.7
Ele caiu no dia 14. Melhorou do traumatismo da queda mas está muito mal pela pneumonia. Precisamos de um milagre.
Gábi
